Não tenho palavras…
Nunca pensei que uma tirada ouvida num filme português de
antanho fosse servir para titular uma prosa sobre fórmula 1, disciplina do
desporto automóvel, esse exercício de risco que amo desde que crescia no ventre
de minha mãe. Mas a verdade é que como dizia o amigo do Vasco Santana, na mesa
do repasto de casamento do “Vasquinho”, “eu não tenho palavras” para descrever
o que vejo, hoje, no desporto automóvel mundial, particularmente, na F.1.
Esfrego os olhos vezes sem conta e sentado confortavelmente
no meu sofá – ou maple como dizia o meu saudoso pai – continuo a não acreditar
no que vejo. O pináculo do desporto automóvel que vi, vezes sem conta, sentado
no famoso “maple” lá de casa ao lado do patriarca, está hoje resumido a um
exercício semelhante ao que muitos de nós, quando de calções ou calças com
joelheiras, íamos à casa de banho e jogávamos ao “a minha é maior que a tua”.
Infelizmente para a Fórmula 1, a Mercedes continua a ter a “maior”
e assistiremos a um desfile dos carros esverdeados com o Lewis Hamilton a rabear
o Nico Rosberg, proporcionado ambos alguns ameaços de ataque cardíaco aos responsáveis
da Mercedes. As migalhas que caírem da mesa do banquete Mercedes serão
depenicadas pela Ferrari e pela Williams, ficando o minguado plantel de mão
estendida à bonomia do intragável Bernie Ecclestone, encenando uma ópera bufa
arraçada de tragédia cómica.
Mas se tudo se resumisse a isto, ainda haveria uma forma
rebuscada de desculpar a falta de interesse da Fórmula 1 (que ameaça tornar-se
crónica!), mas o que se assiste fora das pistas é quase, perdão, é mesmo, profundamente
patético.
Descontando os mais abonados. o plantel da Fórmula 1 é feito
por equipas falidas, a caminho de falirem ou sustentadas por financiamentos que
chegam vá lá saber-se de onde e onde Ecclestone aparece, sempre, como vedeta do
enredo. Assistiu-se ao ridículo de uma equipa ir passear à Austrália só para
receber os prémios do ano anterior e assim, talvez… talvez, competir em mais
uma mão cheia de corridas.
Mas pior foi a lama que Guido van der Garde atirou à
ventoinha e que acabou a conspurcar a, até agora, imaculada Sauber F1 Team, a
imagem da Fórmula 1 e aqueles que insistiram em aprovar um regulamento que só
mesmo um membro da Associação Luís Braille podia dizer que não via onde tudo ia
acabar.
Diz o povo que “quem paga adiantado merece ser enganado” e o
holandês engoliu isca, anzol e linha acreditando que teria lugar na F1. Ameaças,
processos e tudo o que poderia ser feito para manchar (mais um pouco…) de forma
indelével a disciplina, acabou por desaguar num acordo extra judicial que viu Guido
van der Garde receber chorudo cheque para estar sossegado em casa, devolvendo o
dinheiro “estourado” na Sauber ao pai.
Não é novidade – Raikkonen já passou pelo mesmo – mas a
forma como tudo se processou foi, enfim, vergonhosa e deixou claro que Monisha
Kalterborn não é da mesma cepa de Peter Sauber, transformando a equipa
devolvida pela BMW ao suíço numa casa mercenária onde tudo vale para manter a
pose.
Foi penoso ver apenas duas mãos cheias de carros em
Melbourne, alguns arrastando-se pela pista, a maioria vergada pelo domínio
absoluto da Mercedes e com lutas em pista reduzidas ás ultrapassagens nas
boxes.
Penoso é ver que Bernie Ecclestone transformou-se num
problema para a F.1 com as suas tiradas e a obsessão por recuperar o dinheiro
perdido no divórcio e no pagamento que teve de fazer para evitar ser preso. É
pornográfico pedir 20 milhões de euros/ano para ter o privilégio de arrastar o
promotor para a bancarrota organizando um Grande Prémio de Fórmula 1. Os árabes
e os asiáticos até o podem fazer, pois o dinheiro não lhes custa a ganhar, mas
no Velho Continente as coisas são diferentes e até os alemães fizeram ao
azougado súbdito de Sua Majestade o tão português manguito e em 2015 não haverá
prova na Alemanha.
Corro o risco de estar a colocar a carroça à frente dos bois,
mas a Fórmula 1, assim, vai daqui direito para o fosso e, por mim, o sofá vai
deixar de contar comigo para ver corridas sensaboronas e onde o exercício de
adivinhar quem vai ganhar é mais fácil que o velho “se não estiver céu nublado,
vai estar sol”.
Felizmente há sol para lá da linha do horizonte, chama-se
World Endurance Championship (WEC) e apesar do legislador que desenhou o
regulamento ter, exatamente, o mesmo cérebro esparguete dos homens da F1, aqui
há diversidade, inovação e alguma loucura. Os carros são diferentes, há coisas
que podem chegar à produção em série e além dos “aviões” de Toyota, Audi e
Porsche, andam por lá os GT que fazem sonhar de olhos abertos até os menos
conhecedores. Quem não gostava de ter um Porsche 911 ou um Ferrari 458 Italia
atire a primeira pedra… E porque não quero escandalizar os especialistas, digo apenas que o sofá cá de casa vai voltar a ter-me como companhia
para ver o Disney Channel com a filhota e as corridas do WEC…