sexta-feira, 27 de março de 2015



Não tenho palavras…

Nunca pensei que uma tirada ouvida num filme português de antanho fosse servir para titular uma prosa sobre fórmula 1, disciplina do desporto automóvel, esse exercício de risco que amo desde que crescia no ventre de minha mãe. Mas a verdade é que como dizia o amigo do Vasco Santana, na mesa do repasto de casamento do “Vasquinho”, “eu não tenho palavras” para descrever o que vejo, hoje, no desporto automóvel mundial, particularmente, na F.1.

Esfrego os olhos vezes sem conta e sentado confortavelmente no meu sofá – ou maple como dizia o meu saudoso pai – continuo a não acreditar no que vejo. O pináculo do desporto automóvel que vi, vezes sem conta, sentado no famoso “maple” lá de casa ao lado do patriarca, está hoje resumido a um exercício semelhante ao que muitos de nós, quando de calções ou calças com joelheiras, íamos à casa de banho e jogávamos ao “a minha é maior que a tua”.

Infelizmente para a Fórmula 1, a Mercedes continua a ter a “maior” e assistiremos a um desfile dos carros esverdeados com o Lewis Hamilton a rabear o Nico Rosberg, proporcionado ambos alguns ameaços de ataque cardíaco aos responsáveis da Mercedes. As migalhas que caírem da mesa do banquete Mercedes serão depenicadas pela Ferrari e pela Williams, ficando o minguado plantel de mão estendida à bonomia do intragável Bernie Ecclestone, encenando uma ópera bufa arraçada de tragédia cómica.

Mas se tudo se resumisse a isto, ainda haveria uma forma rebuscada de desculpar a falta de interesse da Fórmula 1 (que ameaça tornar-se crónica!), mas o que se assiste fora das pistas é quase, perdão, é mesmo, profundamente patético.

Descontando os mais abonados. o plantel da Fórmula 1 é feito por equipas falidas, a caminho de falirem ou sustentadas por financiamentos que chegam vá lá saber-se de onde e onde Ecclestone aparece, sempre, como vedeta do enredo. Assistiu-se ao ridículo de uma equipa ir passear à Austrália só para receber os prémios do ano anterior e assim, talvez… talvez, competir em mais uma mão cheia de corridas. 

Mas pior foi a lama que Guido van der Garde atirou à ventoinha e que acabou a conspurcar a, até agora, imaculada Sauber F1 Team, a imagem da Fórmula 1 e aqueles que insistiram em aprovar um regulamento que só mesmo um membro da Associação Luís Braille podia dizer que não via onde tudo ia acabar.

Diz o povo que “quem paga adiantado merece ser enganado” e o holandês engoliu isca, anzol e linha acreditando que teria lugar na F1. Ameaças, processos e tudo o que poderia ser feito para manchar (mais um pouco…) de forma indelével a disciplina, acabou por desaguar num acordo extra judicial que viu Guido van der Garde receber chorudo cheque para estar sossegado em casa, devolvendo o dinheiro “estourado” na Sauber ao pai. 

Não é novidade – Raikkonen já passou pelo mesmo – mas a forma como tudo se processou foi, enfim, vergonhosa e deixou claro que Monisha Kalterborn não é da mesma cepa de Peter Sauber, transformando a equipa devolvida pela BMW ao suíço numa casa mercenária onde tudo vale para manter a pose. 

Foi penoso ver apenas duas mãos cheias de carros em Melbourne, alguns arrastando-se pela pista, a maioria vergada pelo domínio absoluto da Mercedes e com lutas em pista reduzidas ás ultrapassagens nas boxes. 

Penoso é ver que Bernie Ecclestone transformou-se num problema para a F.1 com as suas tiradas e a obsessão por recuperar o dinheiro perdido no divórcio e no pagamento que teve de fazer para evitar ser preso. É pornográfico pedir 20 milhões de euros/ano para ter o privilégio de arrastar o promotor para a bancarrota organizando um Grande Prémio de Fórmula 1. Os árabes e os asiáticos até o podem fazer, pois o dinheiro não lhes custa a ganhar, mas no Velho Continente as coisas são diferentes e até os alemães fizeram ao azougado súbdito de Sua Majestade o tão português manguito e em 2015 não haverá prova na Alemanha.

Corro o risco de estar a colocar a carroça à frente dos bois, mas a Fórmula 1, assim, vai daqui direito para o fosso e, por mim, o sofá vai deixar de contar comigo para ver corridas sensaboronas e onde o exercício de adivinhar quem vai ganhar é mais fácil que o velho “se não estiver céu nublado, vai estar sol”.

Felizmente há sol para lá da linha do horizonte, chama-se World Endurance Championship (WEC) e apesar do legislador que desenhou o regulamento ter, exatamente, o mesmo cérebro esparguete dos homens da F1, aqui há diversidade, inovação e alguma loucura. Os carros são diferentes, há coisas que podem chegar à produção em série e além dos “aviões” de Toyota, Audi e Porsche, andam por lá os GT que fazem sonhar de olhos abertos até os menos conhecedores. Quem não gostava de ter um Porsche 911 ou um Ferrari 458 Italia atire a primeira pedra… E porque não quero escandalizar os especialistas, digo apenas que o sofá cá de casa vai voltar a ter-me como companhia para ver o Disney Channel com a filhota e as corridas do WEC…

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