Rali de Portugal afinal... fica a sul?
Impressionante como os portugueses vão da euforia à depressão, do elogio à ofensa, do oito ao oitenta. Vem isto a propósito das mais recentes notícias relacionadas com o Rali de Portugal, etapa portuguesa do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), organizada pelo Automóvel Clube de Portugal (ACP) e cujos rostos são Carlos Barbosa, presidente do ACP e da Comissão WRC da Federação Internacional do Automóvel (FIA) e Pedro de Almeida.
Ora, depois do mais mal guardado segredo ter sido revelado,
enfim, o Rali de Portugal deixava o conforto e qualidade sulistas para abraçar
o ambiente fervoroso das gentes nortenhas, eis que quais gauleses da aldeia de
Asterix, caiu o céu na cabeça dos homens do ACP Motorsport. O Turismo de
Portugal decidiu parar de financiar a festa e, na esteira desta decisão, deixou
de mão estendida os organizadores do Circuito da Boavista que traziam a
Portugal o Campeonato do Mundo de Turismos (WTCC).
Abro aqui um parêntesis para dizer que já referi que a
mudança rumo a Norte cheirava a esturro, pois a prova iria custar mais meio
milhão de euros, o itinerário é mais complicado de estruturar e devido às
regras, o centro nevrálgico tem de se deslocar mais a Norte, deixando o Centro
e Arganil de fora e os riscos são abissalmente maiores. Justificações? Apenas
uma declaração absurda, ridícula de Carlos Barbosa, que lhe vai rebentar nas mãos como bomba de
carnaval feita pelos chineses: “os verdadeiros adeptos do rali estão no Norte
do país.”
Este esgar idiota que tresandou a lambe-botismo absoluto do
presidente do ACP tinha uma razão: as câmaras municipais nortenhas que há muito
salivavam pela prova aceitaram pagar a festa (os sulistas decidiram que “assim
está bem, não pagamos, não pagamos”) e, evidentemente, manter assim as mordomias
e os ordenados opíparos dos responsáveis da grande manifestação desportiva que
oferece zilhões de retorno ao pais.
Nunca foi pelos adeptos, pois os verdadeiros adeptos dos
ralis e do Rali de Portugal vão atrás da prova seja ela onde for. Ou quando a prova
começava em Lisboa, subia a Norte, descia pelo centro e desaguava no Estoril, os
espetadores eram apenas os nortenhos? Eu nasci em Lisboa e fiz milhares de
quilómetros como adepto e depois como jornalista, chegando a roubar carros ao
meu pai e a amigos para isso! Fecha-se aqui este parêntesis.
A euforia patética dos nortenhos e a fúria ainda mais
patética dos sulistas, com defensores de uns e de outros a se engalfinharem com
argumentos mais ou menos parvos, usando o Facebok como plataforma privilegiada
para destilarem regionalismo e ódio espúrio e inútil num pais com pouco mais de
800 quilómetros de comprimento, conheceu uma trégua quando a notícia sobre o
fecho da torneira dos fundos públicos aterrou com estrondo nas televisões,
sítios de internet, jornais e no infame Facebook.
Trégua curta pois voltaram as indignações e as ofensas,
desta vez com curiosa e inusitada aliança Norte/Centro/Sul contra esses
energúmenos do Turismo e do Governo que gastam dinheiro em tanta coisa e não
gastam uma merreca no WRC. Nova avalancha de argumentos e lançamento de estudos
que atestam, sem sombra de dúvida, os zilhões de euros que o Rali de Portugal
oferece ao turismo e a Portugal. A única sombra que paira é que tantos zilhões
seriam úteis para liquidar a dívida pública... mas até agora nada. Razões para
isso? Vociferaram os verdadeiros adeptos que a Sul esses mesmos zilhões eram
gastos de forma estapafúrdia por portugueses sulistas e aldrabões, o oposto das
boas e mui honestas gentes do Norte.
Quando o coro de indignação geral começou a fenecer como a
espuma da maré desmaia na praia, eis que alguém abriu a porta e uma corrente de
ar trouxe novidades de deixar qualquer um boquiaberto. Depois dos mais recentes
desenvolvimentos, o ACP Motorsport vai arrepiar caminho e manter a prova
portuguesa do WRC a Sul, poupando o meio milhão de euros, cortando algumas
mordomias – será que o presidente do ACP e da comissão WRC da FIA e o diretor
de prova vão passar a viajar de económica e não de executiva?! – mas salvando o
couro.
Ora, se antes do rali a Norte os “verdadeiros adeptos dos
ralis” apedrejavam e mimavam com todo o tipo de meiguice o presidente do ACP,
depois de lhes ter falado ao coração, Carlos Barbosa passou a ser um herói e um
querido, mas agora com este verdadeiro mortal à retaguarda, lá vai o pobre
homem passar de bestial a besta.
Logo o Facebook, qual fogueira alimentada por gasolina de
105 octanas, deixou claro que a patir de agora, “ACP nunca mais”, “não volto a
por os pés no rali” e mais alguns mimos, com alguns a exibirem a alegria que a
nova lhes trouxe e alguns outros a não disfarçarem o sabor de vingança “se não
nos toca a nós, também não toca a vós”...
Contas feitas, estamos em Agosto de 2014 e ninguém faz bem
ideia onde será realizado o Rali de Portugal 2015, quem o vai pagar e como ele
se manterá dentro deste cantinho à beira mar plantado.
Mesmo irritando a maioria que continua a não perceber que
viver à custa já nem em casa dos pais é possível, acho muito bem que o Governo
tenha retirado o apoio pois quem não tem capacidade para fazer as coisas de
moto próprio, dedique-se a outra coisa. Há muito tempo que digo que o edifício
da competição automóvel em Portugal tem de ser demolido para se construir tudo
de novo sobre alicerces válidos e capazes de defender a estabilidade e
qualidade desse edifício.
Temos de acabar com a subsidiodependência, com a mão
estendida e com a chica espertisse de viver à conta de quem faz o espetáculo.
Se não temos dinheiro para provas internacionais de calibre, pois não as tenhamos.
Há possibilidade de ter provas internacionais em Portugal sem recorrer aos mesmos
do costume? Há e o ELMS (European Le Mans Series) vem ao Estoril sem subsídio
pela mão de pessoas que servem o automobilismo e não se vão servir dele. Vão ser
recompensados pelo seu trabalho? Vão, naturalmente, mas na justa medida e não
de forma principesca como outros se aviam.
O Rali de Portugal não vai desaparecer e tudo se irá compor,
seja a Norte ou a Sul, mas por esta pequena amostra fica evidente que além de
termos de crescer muito na economia e na produtividade, também temos de crescer
muito como povo. A não ser que os bárbaros do Norte da Europa, que fazem provas
sem recurso a fundos estatais, sejam umas bestas. Mas preferia que fossem todos
umas bestas produtivas e ricas que espertalhões que passam a vida de mão
estendida, degustam o menu das prostitutas, mas vestem Armani, usam iPhone e
tem a nata da competição automóvel em Portugal, em eventos onde podem desfilar
a ranhosa e pobre vaidade.
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