domingo, 10 de agosto de 2014

Rali de Portugal afinal... fica a sul?

Impressionante como os portugueses vão da euforia à depressão, do elogio à ofensa, do oito ao oitenta. Vem isto a propósito das mais recentes notícias relacionadas com o Rali de Portugal, etapa portuguesa do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), organizada pelo Automóvel Clube de Portugal (ACP) e cujos rostos são Carlos Barbosa, presidente do ACP e da Comissão WRC da Federação Internacional do Automóvel (FIA) e Pedro de Almeida.

Ora, depois do mais mal guardado segredo ter sido revelado, enfim, o Rali de Portugal deixava o conforto e qualidade sulistas para abraçar o ambiente fervoroso das gentes nortenhas, eis que quais gauleses da aldeia de Asterix, caiu o céu na cabeça dos homens do ACP Motorsport. O Turismo de Portugal decidiu parar de financiar a festa e, na esteira desta decisão, deixou de mão estendida os organizadores do Circuito da Boavista que traziam a Portugal o Campeonato do Mundo de Turismos (WTCC).

Abro aqui um parêntesis para dizer que já referi que a mudança rumo a Norte cheirava a esturro, pois a prova iria custar mais meio milhão de euros, o itinerário é mais complicado de estruturar e devido às regras, o centro nevrálgico tem de se deslocar mais a Norte, deixando o Centro e Arganil de fora e os riscos são abissalmente maiores. Justificações? Apenas uma declaração absurda, ridícula de Carlos Barbosa,  que lhe vai rebentar nas mãos como bomba de carnaval feita pelos chineses: “os verdadeiros adeptos do rali estão no Norte do país.”

Este esgar idiota que tresandou a lambe-botismo absoluto do presidente do ACP tinha uma razão: as câmaras municipais nortenhas que há muito salivavam pela prova aceitaram pagar a festa (os sulistas decidiram que “assim está bem, não pagamos, não pagamos”) e, evidentemente, manter assim as mordomias e os ordenados opíparos dos responsáveis da grande manifestação desportiva que oferece zilhões de retorno ao pais.

Nunca foi pelos adeptos, pois os verdadeiros adeptos dos ralis e do Rali de Portugal vão atrás da prova seja ela onde for. Ou quando a prova começava em Lisboa, subia a Norte, descia pelo centro e desaguava no Estoril, os espetadores eram apenas os nortenhos? Eu nasci em Lisboa e fiz milhares de quilómetros como adepto e depois como jornalista, chegando a roubar carros ao meu pai e a amigos para isso! Fecha-se aqui este parêntesis.

A euforia patética dos nortenhos e a fúria ainda mais patética dos sulistas, com defensores de uns e de outros a se engalfinharem com argumentos mais ou menos parvos, usando o Facebok como plataforma privilegiada para destilarem regionalismo e ódio espúrio e inútil num pais com pouco mais de 800 quilómetros de comprimento, conheceu uma trégua quando a notícia sobre o fecho da torneira dos fundos públicos aterrou com estrondo nas televisões, sítios de internet, jornais e no infame Facebook.

Trégua curta pois voltaram as indignações e as ofensas, desta vez com curiosa e inusitada aliança Norte/Centro/Sul contra esses energúmenos do Turismo e do Governo que gastam dinheiro em tanta coisa e não gastam uma merreca no WRC. Nova avalancha de argumentos e lançamento de estudos que atestam, sem sombra de dúvida, os zilhões de euros que o Rali de Portugal oferece ao turismo e a Portugal. A única sombra que paira é que tantos zilhões seriam úteis para liquidar a dívida pública... mas até agora nada. Razões para isso? Vociferaram os verdadeiros adeptos que a Sul esses mesmos zilhões eram gastos de forma estapafúrdia por portugueses sulistas e aldrabões, o oposto das boas e mui honestas gentes do Norte.

Quando o coro de indignação geral começou a fenecer como a espuma da maré desmaia na praia, eis que alguém abriu a porta e uma corrente de ar trouxe novidades de deixar qualquer um boquiaberto. Depois dos mais recentes desenvolvimentos, o ACP Motorsport vai arrepiar caminho e manter a prova portuguesa do WRC a Sul, poupando o meio milhão de euros, cortando algumas mordomias – será que o presidente do ACP e da comissão WRC da FIA e o diretor de prova vão passar a viajar de económica e não de executiva?! – mas salvando o couro.

Ora, se antes do rali a Norte os “verdadeiros adeptos dos ralis” apedrejavam e mimavam com todo o tipo de meiguice o presidente do ACP, depois de lhes ter falado ao coração, Carlos Barbosa passou a ser um herói e um querido, mas agora com este verdadeiro mortal à retaguarda, lá vai o pobre homem passar de bestial a besta.

Logo o Facebook, qual fogueira alimentada por gasolina de 105 octanas, deixou claro que a patir de agora, “ACP nunca mais”, “não volto a por os pés no rali” e mais alguns mimos, com alguns a exibirem a alegria que a nova lhes trouxe e alguns outros a não disfarçarem o sabor de vingança “se não nos toca a nós, também não toca a vós”...

Contas feitas, estamos em Agosto de 2014 e ninguém faz bem ideia onde será realizado o Rali de Portugal 2015, quem o vai pagar e como ele se manterá dentro deste cantinho à beira mar plantado.

Mesmo irritando a maioria que continua a não perceber que viver à custa já nem em casa dos pais é possível, acho muito bem que o Governo tenha retirado o apoio pois quem não tem capacidade para fazer as coisas de moto próprio, dedique-se a outra coisa. Há muito tempo que digo que o edifício da competição automóvel em Portugal tem de ser demolido para se construir tudo de novo sobre alicerces válidos e capazes de defender a estabilidade e qualidade desse edifício.

Temos de acabar com a subsidiodependência, com a mão estendida e com a chica espertisse de viver à conta de quem faz o espetáculo. Se não temos dinheiro para provas internacionais de calibre, pois não as tenhamos. Há possibilidade de ter provas internacionais em Portugal sem recorrer aos mesmos do costume? Há e o ELMS (European Le Mans Series) vem ao Estoril sem subsídio pela mão de pessoas que servem o automobilismo e não se vão servir dele. Vão ser recompensados pelo seu trabalho? Vão, naturalmente, mas na justa medida e não de forma principesca como outros se aviam.

O Rali de Portugal não vai desaparecer e tudo se irá compor, seja a Norte ou a Sul, mas por esta pequena amostra fica evidente que além de termos de crescer muito na economia e na produtividade, também temos de crescer muito como povo. A não ser que os bárbaros do Norte da Europa, que fazem provas sem recurso a fundos estatais, sejam umas bestas. Mas preferia que fossem todos umas bestas produtivas e ricas que espertalhões que passam a vida de mão estendida, degustam o menu das prostitutas, mas vestem Armani, usam iPhone e tem a nata da competição automóvel em Portugal, em eventos onde podem desfilar a ranhosa e pobre vaidade.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Rali de Portugal a Norte… razões para regozijo?

As pessoas, por vezes, esquecem-se do que dizem e desvalorizam o facto de certas tiradas serem como os "boomerangs". Vem isto a propósito daquilo que o presidente do Automóvel Club de Portugal (ACP) disse após a confirmação da viragem a Norte do Rali de Portugal.
Disse o azougado presidente daquela instituição que, passo a citar, "os fãs do Norte são os verdadeiros fãs do automobilismo." Justificava, assim, esta decisão que, independentemente de ser certa ou errada, radica em outras razões que não o grau de qualidade dos adeptos da região norte de Portugal.
Mas, dizia, estas afirmações de Carlos Barbosa vão acabar por lhe estourar nas mãos quando um dia tiver de voltar a dar golpe de rins inaudito e regressar de chapéu amachucado entre mãos ao Sul de Portugal. Naturalmente que poderá o mesmo dirigente já não fazer parte do elenco diretivo do ACP, mas a verdade é que Barbosa não poderá levar a mal o pano encharcado que lhe acertará na face, atirado pelos adeptos do desporto motorizado do Sul.
Porque não foram os adeptos do Norte, nem do Sul, nem do Centro, nem o Jean Todt - que se deve estar a borrifar para o que se passa no Rali de Portugal… - nem a Michele Mouton, nem o Passos Coelho, nem a Senhora do Caravaggio ou da Penha que tiveram culpa nesta mudança.
O grande culpado chama-se dinheiro, pilim, guito, pataca, pau, o que lhe quiserem chamar. O Rali de Portugal virou a Norte porque as câmaras municipais, sedentas de um evento onde gastar dinheiro e deixar o povinho contente e feliz - que pode não parecer, mas são coisas diferentes - pagaram a festa juntamente com os patrocinadores (estes numa ligação que tem pano para mangas, mas que para aqui não é chamada). A festa e os opíparos rendimentos de quem organiza, desenha e controla a festa. Sim que o rali dura uma semana mas leva um ano inteiro a preparar, viajar em económica dá dor nas costas nos dias que correm e estranhar a cama em hóteis de média-baixa estrelagem é comum.
Portanto, amigos nortenhos que aqui e ali e acolá se vangloriaram pela escolha do Norte para albergar a prova que, curiosamente, se chama Rali de Portugal, que agora teceram loas ao homem que apedrejaram ao longo de dez anos, que agora acham que a prova está onde devia estar, posso apenas dizer aquilo que dizem os brasileiros… "voces sabem é nada!" E já agora, uma palavra para os homens de Arganil que tanto fizeram, tanto pedalaram para levar o rali para Norte, diziam, para a Catedral, e que acabaram como o enjeitado… Apesar de tudo, não mereciam…
Como não consigo perceber esta mesquinhez de Norte e de Sul num pais com 840 quilómetros de comprimento, tanto se me dá ser o rali ser no Douro Vinhateiro ou nos montes alentejanos. Não gosto de vinho, portanto… Espero que seja uma prova de sucesso - apesar de ser mais cara, mais arriscada e complicada em termos logísticos, e não sou eu que o digo! - que tudo corra bem e que os meus compatriotas do Norte - que ainda me hão de dizer onde é a fronteira… - fiquem felizes e contentes. É sinal de que tudo correu bem.
Quanto aos sulistas, revoltados e de sobrolho franzido a modos de birra, deixem lá isso… Tudo tem um princípio e um fim e um rali que todos diziam que não durava mais de um ano, ficou por terras do Algarve e Alentejo durante 10 anos. Sabem, já estava tudo cansado da lagosta e do percebes (understands em inglês…) e estava na hora de trocar pela Francesinha e pela Posta Barrosã.
Agora, arregacem as mangas e inventem alguma coisa para manter o povinho feliz e contente e terem algum retorno, porque o que mais dói aos senhores do Turismo e outras interessantes e úteis entidades, é mesmo acabar-se o maná caído, não do céu como no caso dos israelitas da parábola bíblica, mas dos bolsos dos "senhoris estrãngeros do ralie".
Quanto aos senhores do ACP Motorsport, pelo visto já conhecedores do fim do subsídio estatal ao Rali de Portugal, incrementem a exploração do poço de petróleo que devem ter descoberto algures no Prior Velho, Lisboa, pois nas contas feitas, não por mim, falta-lhes milhão e meio de euros...