quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Máquinas de lavar louça e a Fórmula 1

Surgiu a necessidade de trocar a minha máquina de lavar louça e, vá lá saber-se porque, lembrei-me da atual fórmula 1. Não faz sentido pois não? O interessante é que tem tudo a ver. Sigam o meu raciocínio.

Quando cheguei à loja disse ao solícito vendedor que necessitava de comprar uma maquina de lavar louça. Retorquiu-me ele, simpaticamente, se desejava com pré programa de lavagem, se queria uma unidade com código de energia A+, se gostaria de adquirir com sistema de abrilhantamento e, já agora, se queria com a promoção das pastilhas ou preferia com líquido de lavagem.

Inocentemente, aparvalhado com tanta coisa para decidir, voltei a dizer ao simpático vendedor que... queria uma máquina que me lavasse a louça. Ato continuo, recomeçou a lengalenga que deixei de ouvir após cinco segundos.

Fiquei com aquela cara que fazemos quando estamos qual burro a olhar para palácio e tentei uma última vez sair da loja com uma simples, comum e normal máquina que me lavasse a louça. Debalde! O vendedor inundou-me de razões e explicações sobre qual o modelo que devia escolher, lembrando que temos de respeitar o ambiente e  acautelar a sustentabilidade do futuro.

Talvez porque me fui transformando ao longo dos mais difíceis minutos que passei numa loja, o vendedor foi deixando de ser simpático, pelo menos aos meus olhos, a vontade de sair da loja a correr foi crescendo qual massa a levedar e já com a cara de cliente do BES enganado, fiz derradeira tentativa de levar para casa a malfada máquina de lavar louça. Simples e que me lavasse a louça!

Temendo o pior - a minha cara pelo visto assusta mesmo! - o rapazola lá me indicou uma máquina com todos os extras e mais alguns onde faltava, apenas, a opção de me servir café, e que me acabou por custar os olhos da cara! E agora lá está ela na minha cozinha, resplandecente... mas a lavar pratos, copos e talheres. Nada mais!

Ora, a Fórmula 1 é uma espécie de máquina de lavar louça carregadinha de extras. O objetivo final da segunda é levar pratos, copos e talheres, a primeira, levar os pilotos a andarem o mais depressa possível, oferecendo o maior espetáculo ao volante de carros barulhentos e sempre em precário equilíbrio entre a pista e o despiste. E depois, que os espetadores se divirtam com o espetáculo oferecido. Naturalmente que, tal como na loja onde comprei a minha nova máquina de lavar louça, existe alguém que ganha dinheiro à conta disso, vendendo caríssimo um produto que, confessemos, é bastante básico.

Confesso que a fórmula 1 dos dias de hoje está tão estimulante e desejável como uma colonoscopia... ou a minha máquina de lavar louça. Caríssima, sofisticada, linda, equipada com as melhores coisas de todas as áreas, mas... sem nada de realmente novo no que toca à sua função... lavar a louça. A Fórmula 1 é exatamente igual!

Para lavar a minha louça preciso de pouca coisa... uma maquina simples que tenha capacidade para albergar os meus pratos e talheres, os da minha esposa e os da minha filhota. Onde coloque uma pastilha, ou coloque líquido, ligue o botão e passado razoável tempo, tenho pratos, talheres, copos e demais tralha culinária lavados e prontos para serem utilizados novamente, sem que tenha violentado as minhas unhas e a pele das minhas mãozinhas.

A fórmula 1 é simples: um carro só com um lugar, com um motorzaço montado na traseira, rodas destapadas e vinte ou mais malucos às voltas num circuito fechado, ganhando quem chegar em primeiro aquilo que se chama linha de meta.

Então para quê complicar tudo? Podem juntar as unidades de energia com tudo e mais alguma coisa e ainda os MGK, MGU e mais o turbo, blá, blá, blá, mais uma série de coisas que fazem tanta falta como uma viola num enterro. E mais o DRS que é uma espécie de batota. Mas no fundo, tal como a minha máquina de lavar louça, a função é apenas divertir os pilotos e os espetadores e dar dinheiro a ganhar  a quem manda na festa. E para essa função tão simples... basta um carrinho como aquele que descrevo umas linhas acima.

Desculpem, mas para ver duas mãos cheias de rapazes mais ou menos crescidos às voltas numa pista em procissão apenas quebrada pela tal batota do DRS, ou pela chuva sempre desagradável mas amiga do espetáculo, é preciso pagar tanto e adormecer vezes sem conta no sofá?

Ou seja, assim como uma máquina de lavar louça basta ter programas de lavagem consoante o lixo que a dita tiver agarrada, a Fórmula 1 precisa de voltar a ser simples. Mandem lá para o desemprego os cocabichinhos que estudam o vento e as mentes delirantes que inventam as batotas, aumentem a forma do carro ficar agarrado ao solo por via mecânica e quem tiver unhas toca guitarra. Porque essa deve ser a peça principal de um carro de competição: o piloto.

A minha máquina de lavar louça está no escalão A de poupança de energia e, segundo o vendedor, salva uma dúzia de ursos polares, tendo ainda um sistema de poupança de água que reduz o consumo em... percentagem de alguma coisa. Mas, na essência, é uma máquina que me lava a louça! E para isso não preciso de 24 programas, duas opções de abrilhantador e seis modos de lavar as peças mais delicadas. Apenas preciso que me lave a louça!

A F1 precisa de desenvolvimento tecnológico, precisa de ser o pináculo do desporto automóvel, mas não precisa de ser como é agora. Não precisa de regras estapafúrdias, não precisa de tamanho desenvolvimento aerodinâmico que nunca será usado nos carros de série, não precisa de limitações que obriguem os pilotos a andarem o mais devagar possível para ganhar. Isso é contra a essência do desporto automóvel! A F1 não precisa de comissários que por tudo e por nada e ainda porque sim, penalizam, ameaçam e cortam toda a diversão da disciplina.

Por favor, devolvam a Fórmula 1 aos pilotos, devolvam a Fórmula 1 aos adeptos e deixem-se de tretas que não fazem sentido. Porque, no fundo, a minha máquina de lavar e a Fórmula 1 estão profundamente ligadas: ambas são sofisticadas, caras e cumprem um desígnio que permanece igual há eras, mas as duas são chatas e não acrescentam nada àquilo que é a sua função primária.


A minha sorte é que não preciso de estar duas horas a olhar para a minha máquina de levar louça para saber o resultado final da tal lavagem com os programas que salvam os ursos polares... 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

António Felix da Costa, DTM e borrego

Não gosto de borrego. Não sei, não gosto e detesto aquelas pessoas que me dizem “ah, mas é tão bom quando eles tiram ‘aquilo’... sabe tão bem chupar até os ossos num guisado”. Que nojo! Chupar os ossos sabendo que esteve – ou está – lá ‘aquilo’, a bolsa de sebo que os bichos oferecem gratuitamente a quem os degusta. Decididamente, não me convencem a comer borrego!
Sou assim, não sigo a maré e tenho a mania de fazer aquilo que a minha cabeça manda. Vem este discurso sobre borregos, sebos e teimosias a propósito da vitória do António Felix da Costa na prova do DTM realizada o passado final de semana em Zandvoort, Holanda. Um feito assinalável, pois fez a “Portuguesa” ecoar na cabeça dos holandeses, meio oca pela queima da flora dos países baixos, e dos alemães, tornou-se no primeiro luso a vencer no campeonato alemão de turismos e deixou os habituais cataventos à beira de uma ereção, creio mesmo que à beira de um orgasmo. Suspeito que alguns... bom, adiante!
Mas, lá está, não tenho ereções com as vitórias de alguém e muito menos sinto o estertor do orgasmo porque um português ganhou uma corrida do DTM, não deixando, claro, de ter orgulho no “Formiga”. Por isso, em primeiro lugar, parabéns António Félix da Costa! Sei que não vais saber se te dei os parabéns ou não, mas sei que quem está em volta acabará por ler isto e vai te dizer algo do género “o tipo do Facebook que desancou em ti num grupo agora dá-te palmadas nas costas”. Seja como for, os parabéns são sinceros. São sinceros porque, ao contrário de muitos, sempre disse que tens um talento enorme, gigantesco, quase interestelar (isto sou eu a exagerar...). Mas também sempre disse que estavas mal acompanhado e que não te soubeste comportar perante tudo aquilo que sucedeu na tua vida.
Tal como sucede com o borrego, que só quando se tira “aquilo” é que fica, dizem, comestível, não gosto daqueles que arrasam tudo e todos, olhando para a árvore e esquecendo a floresta, mas que quando surgem as vitórias dizem “ahhhh eu tinha razão”. Acertar no Euromilhões depois de saber os números... até eu que não jogo. Dá azar!
António Félix da Costa perdeu o comboio da F1. Não por ser português. Nem porque não se vende RedBull suficiente em Portugal – se fosse por isso não havia preocupação - nem porque os russos despejaram um bidão de petróleo pela cabeça abaixo do patrão da equipa das bebidas energéticas, ou porque o senhor austríaco com cara de poucos amigos “embirrou” com um miúdo cheio de talento com uma alcunha que não lembra a ninguém. O António Félix da Costa perdeu a F1 porque falou demais, a família falou demais e porque o “Formiga” (que raio de alcunha!) não soube lidar com a chegada à F1. Tiradas como “vou ser o melhor do mundo” e “já estou na F1”, demonstraram que não estava preparado para o que estava a chegar.
O jovem António Félix da Costa e a sua família nunca perceberam que não basta ser jeitoso com um volante na mão. É como o borrego... a carne até pode ser suculenta e carregada de virtudes, mas se não for retirado “aquilo” de uma forma perfeita, o sabor a sebo estragará, eternamente, as qualidades que acredito o bicho tenha.
Atirado violentamente para o DTM como se manda para a reciclagem um papel velho e amarrotado, acredito que o António Félix da Costa tenha ficado chateado e até tenha soltado algumas lágrimas de raiva. Logo as carpideiras do costume vieram pedir para acabar com o consumo de RedBull e mais uma série de ideias que só podem vir de pessoas que comem muito borrego... sem que tenham tirado “aquilo”. É que o sebo tem como efeito secundário desfocar o pensamento. Dizem!
O primeiro ano foi de aprendizagem, os erros foram mais que muitos, mas o dinheiro da RedBull e a sagacidade de quem comanda a BMW Motorsport serviram de rede e ampararam a queda que se previa dolorosa.
Passados longos meses, finalmente, chegou a recompensa na forma de vitória. Mas esta vitória só chegou porque sendo o DTM muito menos estimulante – ter no cartão de visita “Piloto DTM” é muito diferente de ter lá escrito “Piloto de F1” – o “Formiga” andou murcho e calado, fazendo o trabalho que lhe ordenaram sem muitas queixas. Colocado na equipa Schnitzer, recebeu um voto de confiança pelo seu enorme, brilhante, talento com um volante nas mãos e um carro debaixo do rabo. Aceitou mudar, calou-se, amadureceu e, finalmente, percebeu que a F1 já lá vai e que não será ele a melhorar o palmarés português na disciplina máxima do desporto automóvel (discutível esta afirmação, mas agora isso não interessa) nas mãos de Tiago Monteiro, cujo pódio nos EUA continua a ser o que de melhor fizemos no ganha pão do Bernie Ecclestone.
Ora, porque não como borrego porque não gosto e não vou na conversa do “é bom se tirarmos ‘aquilo’”, também nunca fui em euforias e por isso congratulei-me com a vitória do António Félix da Costa na Holanda... nada mais. Eu sei que as redes sociais, ontem, parecia que tinham sido invadidas por gente que tomou Cialis ou Viagra, tais foram os orgasmos tidos com a vitória do “Formiga”.
Foi bom, mas foi apenas uma vitória (vá lá, acompanhada por um segundo lugar na primeira corrida e uma “pole-position”)...
Talvez acompanhe a onda de felicidade e também eu tenha uma momento de felicidade intima se, no final do ano, o António Félix da Costa exibir no seu bornal mais vitórias e tenha lutado de forma clara pela melhor classificação possível no campeonato. Caso contrário terá sido uma vitória esporádica e mínimo valor

Até lá, vou continuar a não comer borrego, mesmo que o melhor cozinheiro do mundo diga que tirou ao bicho “aquilo”...

sexta-feira, 27 de março de 2015



Não tenho palavras…

Nunca pensei que uma tirada ouvida num filme português de antanho fosse servir para titular uma prosa sobre fórmula 1, disciplina do desporto automóvel, esse exercício de risco que amo desde que crescia no ventre de minha mãe. Mas a verdade é que como dizia o amigo do Vasco Santana, na mesa do repasto de casamento do “Vasquinho”, “eu não tenho palavras” para descrever o que vejo, hoje, no desporto automóvel mundial, particularmente, na F.1.

Esfrego os olhos vezes sem conta e sentado confortavelmente no meu sofá – ou maple como dizia o meu saudoso pai – continuo a não acreditar no que vejo. O pináculo do desporto automóvel que vi, vezes sem conta, sentado no famoso “maple” lá de casa ao lado do patriarca, está hoje resumido a um exercício semelhante ao que muitos de nós, quando de calções ou calças com joelheiras, íamos à casa de banho e jogávamos ao “a minha é maior que a tua”.

Infelizmente para a Fórmula 1, a Mercedes continua a ter a “maior” e assistiremos a um desfile dos carros esverdeados com o Lewis Hamilton a rabear o Nico Rosberg, proporcionado ambos alguns ameaços de ataque cardíaco aos responsáveis da Mercedes. As migalhas que caírem da mesa do banquete Mercedes serão depenicadas pela Ferrari e pela Williams, ficando o minguado plantel de mão estendida à bonomia do intragável Bernie Ecclestone, encenando uma ópera bufa arraçada de tragédia cómica.

Mas se tudo se resumisse a isto, ainda haveria uma forma rebuscada de desculpar a falta de interesse da Fórmula 1 (que ameaça tornar-se crónica!), mas o que se assiste fora das pistas é quase, perdão, é mesmo, profundamente patético.

Descontando os mais abonados. o plantel da Fórmula 1 é feito por equipas falidas, a caminho de falirem ou sustentadas por financiamentos que chegam vá lá saber-se de onde e onde Ecclestone aparece, sempre, como vedeta do enredo. Assistiu-se ao ridículo de uma equipa ir passear à Austrália só para receber os prémios do ano anterior e assim, talvez… talvez, competir em mais uma mão cheia de corridas. 

Mas pior foi a lama que Guido van der Garde atirou à ventoinha e que acabou a conspurcar a, até agora, imaculada Sauber F1 Team, a imagem da Fórmula 1 e aqueles que insistiram em aprovar um regulamento que só mesmo um membro da Associação Luís Braille podia dizer que não via onde tudo ia acabar.

Diz o povo que “quem paga adiantado merece ser enganado” e o holandês engoliu isca, anzol e linha acreditando que teria lugar na F1. Ameaças, processos e tudo o que poderia ser feito para manchar (mais um pouco…) de forma indelével a disciplina, acabou por desaguar num acordo extra judicial que viu Guido van der Garde receber chorudo cheque para estar sossegado em casa, devolvendo o dinheiro “estourado” na Sauber ao pai. 

Não é novidade – Raikkonen já passou pelo mesmo – mas a forma como tudo se processou foi, enfim, vergonhosa e deixou claro que Monisha Kalterborn não é da mesma cepa de Peter Sauber, transformando a equipa devolvida pela BMW ao suíço numa casa mercenária onde tudo vale para manter a pose. 

Foi penoso ver apenas duas mãos cheias de carros em Melbourne, alguns arrastando-se pela pista, a maioria vergada pelo domínio absoluto da Mercedes e com lutas em pista reduzidas ás ultrapassagens nas boxes. 

Penoso é ver que Bernie Ecclestone transformou-se num problema para a F.1 com as suas tiradas e a obsessão por recuperar o dinheiro perdido no divórcio e no pagamento que teve de fazer para evitar ser preso. É pornográfico pedir 20 milhões de euros/ano para ter o privilégio de arrastar o promotor para a bancarrota organizando um Grande Prémio de Fórmula 1. Os árabes e os asiáticos até o podem fazer, pois o dinheiro não lhes custa a ganhar, mas no Velho Continente as coisas são diferentes e até os alemães fizeram ao azougado súbdito de Sua Majestade o tão português manguito e em 2015 não haverá prova na Alemanha.

Corro o risco de estar a colocar a carroça à frente dos bois, mas a Fórmula 1, assim, vai daqui direito para o fosso e, por mim, o sofá vai deixar de contar comigo para ver corridas sensaboronas e onde o exercício de adivinhar quem vai ganhar é mais fácil que o velho “se não estiver céu nublado, vai estar sol”.

Felizmente há sol para lá da linha do horizonte, chama-se World Endurance Championship (WEC) e apesar do legislador que desenhou o regulamento ter, exatamente, o mesmo cérebro esparguete dos homens da F1, aqui há diversidade, inovação e alguma loucura. Os carros são diferentes, há coisas que podem chegar à produção em série e além dos “aviões” de Toyota, Audi e Porsche, andam por lá os GT que fazem sonhar de olhos abertos até os menos conhecedores. Quem não gostava de ter um Porsche 911 ou um Ferrari 458 Italia atire a primeira pedra… E porque não quero escandalizar os especialistas, digo apenas que o sofá cá de casa vai voltar a ter-me como companhia para ver o Disney Channel com a filhota e as corridas do WEC…