Surgiu a necessidade de
trocar a minha máquina de lavar louça e, vá lá saber-se porque, lembrei-me da
atual fórmula 1. Não faz sentido pois não? O interessante é que tem tudo a ver.
Sigam o meu raciocínio.
Quando cheguei à loja
disse ao solícito vendedor que necessitava de comprar uma maquina de lavar
louça. Retorquiu-me ele, simpaticamente, se desejava com pré programa de
lavagem, se queria uma unidade com código de energia A+, se gostaria de
adquirir com sistema de abrilhantamento e, já agora, se queria com a promoção
das pastilhas ou preferia com líquido de lavagem.
Inocentemente,
aparvalhado com tanta coisa para decidir, voltei a dizer ao simpático vendedor
que... queria uma máquina que me lavasse a louça. Ato continuo, recomeçou a
lengalenga que deixei de ouvir após cinco segundos.
Fiquei com aquela cara
que fazemos quando estamos qual burro a olhar para palácio e tentei uma última
vez sair da loja com uma simples, comum e normal máquina que me lavasse a
louça. Debalde! O vendedor inundou-me de razões e explicações sobre qual o
modelo que devia escolher, lembrando que temos de respeitar o ambiente e acautelar a sustentabilidade do futuro.
Talvez porque me fui
transformando ao longo dos mais difíceis minutos que passei numa loja, o
vendedor foi deixando de ser simpático, pelo menos aos meus olhos, a vontade de
sair da loja a correr foi crescendo qual massa a levedar e já com a cara de
cliente do BES enganado, fiz derradeira tentativa de levar para casa a malfada
máquina de lavar louça. Simples e que me lavasse a louça!
Temendo o pior - a minha
cara pelo visto assusta mesmo! - o rapazola lá me indicou uma máquina com todos
os extras e mais alguns onde faltava, apenas, a opção de me servir café, e que
me acabou por custar os olhos da cara! E agora lá está ela na minha cozinha,
resplandecente... mas a lavar pratos, copos e talheres. Nada mais!
Ora, a Fórmula 1 é uma
espécie de máquina de lavar louça carregadinha de extras. O objetivo final da
segunda é levar pratos, copos e talheres, a primeira, levar os pilotos a andarem
o mais depressa possível, oferecendo o maior espetáculo ao volante de carros
barulhentos e sempre em precário equilíbrio entre a pista e o despiste. E
depois, que os espetadores se divirtam com o espetáculo oferecido. Naturalmente
que, tal como na loja onde comprei a minha nova máquina de lavar louça, existe
alguém que ganha dinheiro à conta disso, vendendo caríssimo um produto que,
confessemos, é bastante básico.
Confesso que a fórmula 1
dos dias de hoje está tão estimulante e desejável como uma colonoscopia... ou a
minha máquina de lavar louça. Caríssima, sofisticada, linda, equipada com as
melhores coisas de todas as áreas, mas... sem nada de realmente novo no que
toca à sua função... lavar a louça. A Fórmula 1 é exatamente igual!
Para lavar a minha louça
preciso de pouca coisa... uma maquina simples que tenha capacidade para
albergar os meus pratos e talheres, os da minha esposa e os da minha filhota.
Onde coloque uma pastilha, ou coloque líquido, ligue o botão e passado razoável
tempo, tenho pratos, talheres, copos e demais tralha culinária lavados e
prontos para serem utilizados novamente, sem que tenha violentado as minhas
unhas e a pele das minhas mãozinhas.
A fórmula 1 é simples:
um carro só com um lugar, com um motorzaço montado na traseira, rodas
destapadas e vinte ou mais malucos às voltas num circuito fechado, ganhando
quem chegar em primeiro aquilo que se chama linha de meta.
Então para quê complicar
tudo? Podem juntar as unidades de energia com tudo e mais alguma coisa e ainda
os MGK, MGU e mais o turbo, blá, blá, blá, mais uma série de coisas que fazem
tanta falta como uma viola num enterro. E mais o DRS que é uma espécie de
batota. Mas no fundo, tal como a minha máquina de lavar louça, a função é
apenas divertir os pilotos e os espetadores e dar dinheiro a ganhar a quem manda na festa. E para essa
função tão simples... basta um carrinho como aquele que descrevo umas linhas
acima.
Desculpem, mas para ver
duas mãos cheias de rapazes mais ou menos crescidos às voltas numa pista em
procissão apenas quebrada pela tal batota do DRS, ou pela chuva sempre
desagradável mas amiga do espetáculo, é preciso pagar tanto e adormecer vezes
sem conta no sofá?
Ou seja, assim como uma
máquina de lavar louça basta ter programas de lavagem consoante o lixo que a
dita tiver agarrada, a Fórmula 1 precisa de voltar a ser simples. Mandem lá
para o desemprego os cocabichinhos que estudam o vento e as mentes delirantes
que inventam as batotas, aumentem a forma do carro ficar agarrado ao solo por
via mecânica e quem tiver unhas toca guitarra. Porque essa deve ser a peça
principal de um carro de competição: o piloto.
A minha máquina de lavar
louça está no escalão A de poupança de energia e, segundo o vendedor, salva uma
dúzia de ursos polares, tendo ainda um sistema de poupança de água que reduz o
consumo em... percentagem de alguma coisa. Mas, na essência, é uma máquina que
me lava a louça! E para isso não preciso de 24 programas, duas opções de
abrilhantador e seis modos de lavar as peças mais delicadas. Apenas preciso que
me lave a louça!
A F1 precisa de
desenvolvimento tecnológico, precisa de ser o pináculo do desporto automóvel,
mas não precisa de ser como é agora. Não precisa de regras estapafúrdias, não
precisa de tamanho desenvolvimento aerodinâmico que nunca será usado nos carros
de série, não precisa de limitações que obriguem os pilotos a andarem o mais
devagar possível para ganhar. Isso é contra a essência do desporto automóvel! A
F1 não precisa de comissários que por tudo e por nada e ainda porque sim,
penalizam, ameaçam e cortam toda a diversão da disciplina.
Por favor, devolvam a
Fórmula 1 aos pilotos, devolvam a Fórmula 1 aos adeptos e deixem-se de tretas
que não fazem sentido. Porque, no fundo, a minha máquina de lavar e a Fórmula 1
estão profundamente ligadas: ambas são sofisticadas, caras e cumprem um
desígnio que permanece igual há eras, mas as duas são chatas e não acrescentam
nada àquilo que é a sua função primária.
A minha sorte é que não
preciso de estar duas horas a olhar para a minha máquina de levar louça para
saber o resultado final da tal lavagem com os programas que salvam os ursos
polares...